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Trabalho de conclusão de curso Bacharel em Artes da Universidade Federal Fluminense

DNA de floresta

Arte e natureza em processos de identificação e pertencimento

          Uma floresta traz consigo uma busca pela liberdade de ser, de existir. E se ao olharmos ao nosso redor, olhássemos para nós mesmos e nos entendêssemos como natureza? O trabalho trata da identificação com o que nos cerca, onde nos percebermos como partes de um mesmo todo, através de pertencimento, acolhimento e rituais de afeto. Essa ideia me atravessa e transborda desde o momento em que meus pais escolheram me chamar de Flora. A palavra Flora, é usada normalmente para indicar a variedade de plantas de uma determinada área. Ela é a vida vegetal. Veja bem, a questão aqui não é apenas o significado do nome em si, mas sim o contexto em que se dá a escolha desse nome. O nome vem da vivência com a proximidade da terra, o nome vem de um contexto de DNA de floresta. Partindo daí, a apresentação do trabalho começa como uma metáfora através da poesia concreta, onde a palavra FLORA é plantada a partir de sementes de alpiste e brota da terra de maneira singular e inesperada.

          O trabalho tenta trazer a partir dos processos de extração e confecção de quase todos os materiais utilizados um olhar para esse DNA de floresta que nos habita. O participar do processo e da metamorfose desse processo, gera uma camada de profundidade a mais no sentir-se parte ao olhar para o resultado final, já que o pertencimento é um dos principais conceitos que aqui nos interessa. Por isso a ficha técnica é de extrema importância. Foi mais de um ano aprendendo a extrair pigmentos naturais, a reciclar papel, coletando elementos e matérias para os experimentos ao longo dos caminhos que vivenciei durante a pandemia da COVID-19. Ficou gritante o privilégio do refúgio, os momentos de respiro onde os rituais de afeto ficaram muito mais evidentes em cada mergulho do corpo nas águas ou nos encontros do pé com a terra. É sobre os incontáveis tons de verde para além do concreto da cidade que trata este trabalho.

          Escolhi a fotografia como meio principal de expressão, pois ao escolher trabalhar com elementos da natureza, principalmente pigmentos naturais, isso envolve uma mudança significativa do trabalho com o passar do tempo. Dessa forma aqui se encontram registros de instantes dessas obras, ao longo de seus processos de mutação. Elas nunca serão as mesmas o tempo todo, os materiais são soberanos de seus resultados, independentemente do quão eu me esforce para preserva-los.

Sobre

          A pesquisa para o trabalho de conclusão de curso começou em 2020, a partir do conceito de identificação com a natureza e do estudo de pigmentos naturais. Um dos objetivos foi de evidenciar no trabalho a camada de se fazer parte do processo dos materiais. Para isso, compreendi que seria fundamental coletar elementos da natureza, fazer a própria tinta e até a própria folha de papel através da reciclagem artesanal. Uma das palavras-chave para o trabalho é, sem dúvida, pertencimento. A ação da participação de um processo até chegar no resultado final, é fundamental aqui para alcançarmos uma identificação latente. Foram meses aprendendo a fazer a extração dos pigmentos naturais, e a tratar essa tinta de forma a alcançar uma melhor conservação e durabilidade. Alguns dos principais elementos explorados para extração foram: açafrão, urucum, açaí, spirulina, cravo, erva mate, carvão vegetal, hibisco, terra, entre outros. Também explorei a cola natural, feita a partir da linhaça, com o adicional de conservantes naturais. Foi necessário fazer principalmente uma análise da ação do tempo sobre essas tintas naturais que podem ser extraídas a partir de muitos elementos diferentes. Por exemplo, o hibisco é um pigmento que mesmo utilizando fixadores e conservantes, ele perde a coloração magenta alcançando em minutos um tom acinzentado. Já as geotintas, originais de solos argilosos, tem um tempo de duração muito grande. Um ótimo exemplo é a pintura rupestre que permanece por gerações.

          Ao longo desse estudo, senti a necessidade de trazer outros tipos de elementos naturais para que o trabalho final pudesse tomar forma com a potência e vida que eu gostaria. A pesquisa reverberou na integração de outros aprendizados de processos além das tintas naturais como papel reciclado e impressões botânicas, coleta de folhas, galhos, cascas e terra, muita terra, amparados pela fotografia e imagens de satélite.

Flora

A poesia concreta traz um conceito de poema-objeto capaz de estruturar uma palavra de forma visual a partir do suporte escolhido. A metáfora da obra Flora surge a partir do entendimento desse conceito, vinculado à palavra que representa tanto o meu nome, como a variedade de plantas e vida vegetal existentes. A palavra FLORA brota da terra trazendo a singularidade de todos os seus significados.

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Caminhos

Quando, utilizando pigmento natural vermelho extraído do urucum, fiz meus primeiros testes de carimbos orgânicos - inspirados nas práticas de impressão botânica -, consegui perceber a semelhança dos caminhos das ramificações das folhas com os presentes nas veias do corpo humano. Pouco mais adiante, analisando imagens de satélite do território brasileiro - via Google Earth -, pude perceber os mesmos percursos nos trajetos dos rios. Esses caminhos representam as mil e uma possibilidades e direções presentes no interior desses 3 elementos. Assim nasce a obra. Composta por 4 folhas A4 de papel branco reciclado com um par de passos em cada folha da minha filha Sol, em seus primeiros 2 anos de vida, aprendendo a caminhar com seus próprios pés, preenchidas com imagens de satélite de rios do território brasileiro, andando seu percurso até se transformar em pés preenchidos com carimbos orgânicos de folhas pintadas com geotinta. As sombras do caminhar também estão presentes representando esse movimento contínuo dessas passagens e direções.

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Ninhos

Habitação, abrigo, casa, porto, toca, refúgio, segurança, pertencimento, conforto. Os ninhos originalmente são construções em que as aves, alguns insetos e peixes, fazem para depositar os ovos, “chocá-los”, criar e proteger os filhotes. Um ninho representa um espaço seguro onde há sensação de proteção, conforto e identificação. Uma casa nem sempre é especificamente sobre o lugar físico, mas sim a emoção que sentimos nesse lugar. A obra Ninhos nasceu a partir da sensação afetiva do nosso próprio universo interior e exterior. Ela consiste em 4 ninhos diferentes, representando o refúgio de cada um, conversando com a ideia da conexão entre casa-natureza. No final, juntos, tornam-se um só grande ninho, que nada mais é do que um envolver de todo um universo de ninhos.

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Sendo

A obra tem vida própria. As sementes germinam e são soberanas nas mutações. Seguindo na linha do primeiro trabalho, nascem as palavras "SER, SOU", a partir de sementes de linhaça plantadas em vaso de aproximadamente 40cm de diâmetro. Desde seu plantio, até o momento em que brota, ela se transforma completamente formando espontânea e curiosamente um formato circular semelhante a um ninho. A própria obra em vida se entrelaça, abraça e se acolhe, sendo. O trabalho se dá a partir de uma parceria entre a artista e os materiais que ela se propõe a usar. A natureza engole e se transforma na própria arte em vida, provando ser livre e espontânea.

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Ficha técnica:

Flora

Sementes de alpiste plantadas em vaso tamanho 45x18 com terra coletada em Guapimirim, formando a palavra FLORA.

 

Caminhos

4 folhas A4 de Papel branco reciclado;

Carimbos vivos a partir de folhas coletadas em Guapimirim com geotintas feitas a partir da coleta de solos terrosos do Sana;

Impressão a laser de imagens de satélite de rios do território brasileiro;

Moldes tirados a partir do pé da Sol, minha filha, com exatos 2 anos.

 

Ninhos

5 folhas A3 de papel kraft reciclado com folhas inseridas na reciclagem:

 

Ninho 1

Geotinta feita a partir da coleta de solos terrosos do Sana;

Folhas secas coletadas no Rio de Janeiro;

Terra coletada em Guapimirim;

Crosta de açafrão resultado de um pote ressecado de tinta natural feita a partir de açafrão.

 

Ninho 2

Folhas secas coletadas em Guapimirim.

 

Ninho 3

Folhas secas coletadas em Guapimirim;

Tinta natural feita a partir de argila preta;

Tinta natural feita a partir de argila branca;

Restos de suculenta da minha janela;

Terra coletada em Guapimirim;

Spirulina (alga verde-azulada) em pó;

Tinta natural feita a partir de Spirulina (alga verde-azulada).

 

Ninho 4

Tinta natural feita a partir de argila preta;

Tinta natural feita a partir de argila branca;

Cascas de semente de abacate comido e replantado por mim;

Folhas secas coletadas da Árvore da Felicidade da minha sala.

 

Ninho final

Junção de todos os outros, formando um só.

Sendo

Sementes de linhaça plantadas em vaso com circunferência de aproximadamente 40cm, com terra coletada em Guapimirim, formando inicialmente as palavras SER, SOU.